Jerusalem Perspective Online

Numa passagem famosa de Daniel 7, o visionário contempla quatro animais fantásticos que, saindo da água, sucedem-se uns aos outros. O último dos animais, no entanto, era muito diferente de todos os anteriores: A seguir, ao contemplar essas visões noturnas, eu vi um quarto animal, terrível, espantoso, e extremamente forte: com enormes dentes de ferro, comia, triturava e calcava aos pés o que restava. Muito diferente dos animais que o haviam precedido, tinha este dez chifres (1). O animal em questão não tinha mesmo nada em comum com os anteriores; a interpretação corrente entre os estudiosos é que os animais referem-se ao mesmo tema de Dn 2, ou seja, à sucessão dos impérios mundiais. Consensualmente são interpretados como Babilônia, Média, Pérsia e o império de Alexandre juntamente com os reinos helenísticos (2). Os chifres são mais difíceis de identificar, mas parecem tratar dos Diádocos e, nos versículos que se seguem, de Antíoco Epífanes, rei selêucida cuja notória inabilidade política acabou precipitando a Revolta dos Macabeus (167 a.C.).O tema das monarquias do mundo, além de particularmente importante na literatura apocalíptica, faz sentir sua presença até mesmo na historiografia da Antigüidade. O fato de David Flusser (1917-2000), em "The fourth empire - an Indian rhinoceros?" (publicado em Judaism and the Origins of Christianity. Jerusalem: Magnes Press, 1988), ter conseguido identificar a possível influência do Romance de Alexandre do Pseudo-Calístenes sobre o autor de Daniel - através de uma passagem semelhante na Vida de Apolônio de Tyana de Filostrato - implica a identificação da "quarta besta" com um rinoceronte.Então apareceu uma besta muito diferente, maior do que um elefante, armada na testa com três chifres, [um animal] que os indianos costumavam chamar odontotyrannos, (cuja cor é escura, semelhante à de um cavalo). Depois de ter bebido água, olhou para o nosso acampamento e atacou-nos de surpresa, e não recuou nem diante de grandes labaredas de fogo (3).Que Flusser tenha tido erudição e capacidade argumentativa para tal lendo o Pseudo-Calístenes nas horas de lazer é prova de sua imensa capacidade de trabalho. Ao mesmo tempo, tendo Flusser deixado nosso convívio em setembro de 2000, a escolha do rinoceronte como símbolo do Projeto de Estudos Judaico-Helenísticos é também uma homenagem à um dos autores mais importantes para as discussões do grupo. Como o rinoceronte de Flusser tem uma natureza compósita - helenística e judaica -, ele representa muito bem o espírito que anima o trabalho do PEJ.


(1) Dn 7:7. Texto em português da Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Edições Paulinas, 1985.(2) Essa interpretação, embora consensual, está longe de ser unânime. Mesmo na Antigüidade o último reino era interpretado por muitos como sendo Roma (assim faz o autor do Quarto Livro de Esdras, por exemplo). Para um levantamento exaustivo do estado da discussão até meados do séc.XX (quando as tentativas sérias de atribuir ao quarto reino outra identidade que não a helenística cessaram), cf. Harold H. Rowley. Darius the Mede and the Four World Empires. Cardiff: University of Wales Press Board, 1959.(3) Wilhelm Kroll. Historia Alexandri Magni. Berlim: Weidmann, 1926; a versão armênia foi editada por Albert M. Wolohjan (The Romance of Alexander the Great by Pseudo-Callisthenes. Nova York: Columbia University Press, 1969). Outras versões da passagem encontram-se na edição do Josippon pelo próprio Flusser (Jerusalém: Bialik, 1980) e na edição de Adolf Ausfeld (Der griechische Alexanderroman. Leipzig: /s.ed./, 1907). Cit. por Flusser, "The fourth empire", p.348.

Home